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| - Ó santa Malibran! fora tão doce Pelas noites suaves do silêncio Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros, Na agonia de um beijo, ouvir gemendo Entre meus sonhos tua voz divina! Ó Paganini! quando moribundo Inda a rabeca ao peito comprimias, Se o hálito de Deus, essa alma d'anjo Que das fibras do peito cavernoso Arquejava nas cordas entornando Murmúrios d'esperança e de ventura, Se a alma de teu viver roçou passando Nalgum lábio sedento de poesia, Numa alma de mulher adormecida, Se algum seio tremeu ao concebê-lo... Esse alento de vida e de futuro — Foi o teu seio, Malibran divina!
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| - Ó santa Malibran! fora tão doce Pelas noites suaves do silêncio Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros, Na agonia de um beijo, ouvir gemendo Entre meus sonhos tua voz divina! Ó Paganini! quando moribundo Inda a rabeca ao peito comprimias, Se o hálito de Deus, essa alma d'anjo Que das fibras do peito cavernoso Arquejava nas cordas entornando Murmúrios d'esperança e de ventura, Se a alma de teu viver roçou passando Nalgum lábio sedento de poesia, Numa alma de mulher adormecida, Se algum seio tremeu ao concebê-lo... Esse alento de vida e de futuro — Foi o teu seio, Malibran divina! Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros, Desdêmona sentida e moribunda, Nunca pude beber no teu exílio... Nos sonhos virginais senti ao menos Tua pálida sombra vaporosa Nesta fronte que a febre encandecera Depor um beijo, suspirar passando! Meu Deus! e, outrora, se um momento a vida De poesia orvalhou meus pobres sonhos, Foi nuns suspiros de mulher saudosa, Foi abatida, a forma desmaiada, Uma pobre infeliz que descorando Fazia os prantos meus correr-me aos olhos! Pobre! pobre mulher! esses mancebos Que choravam por ti... quando gemias, Quando sentias a tua alma ardente No canto esvaecer, pálida e bela, E teu lábio afogar entre harmonias — Almas que de tua alma se nutriam! Que davam-te seus sonhos, e amorosas Desfolhavam-te aos pés a flor da vida... Ai quantas não sentiste palpitantes, Nem ousando beijar teu véu d'esposa, Nas longas noites nem sonhar contigo! E hoje riem de ti! da criatura Que insana profanou as asas brancas!... Que num riso sem dó, uma por uma, Na torrente fatal soltava rindo, E as sentia boiando solitárias... As flores da coroa, como Ofélia!... Que iludida do amor vendeu a glória E deu seu colo nu a beijo impuro... Eles riem de ti!... mas eu, coitada, Pranteio teu viver e te perdôo. Fada branca de amor, que sina escura Manchou no teu regaço as roupas santas? Por que deixavas encostada ao seio A cabeça febril do libertino? Por que descias das regiões doiradas E lançavas ao mar a rota lira Para vibrar tua alma em lábios dele? Por que foste gemer na orgia ardente A santa inspiração de teus poetas... Perder teu coração em vis amores? Anjo branco de Deus, que sina escura Manchou no teu regaço as roupas santas? Pálida Italiana! hoje esquecida. O escárnio do plebeu murchou teus louros! Tua voz se cansou nos ditirambos... E tu não voltas com as mãos na lira Vibrar nos corações as cordas virgens E ao gênio adormecido em nossas almas Na fronte desfolhar tuas coroas!...
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