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| - Dona Maria Meneses, septuagenária, era ainda forte e sadia: a sua face corada e os seus olhos azuis tinham ainda um brilho de vida e de energia; a sua cabeça, cheia de mocidade, emoldurava-se de cabelos completamente brancos, de uma alvura de neve. Os dois filhos, Roberto e João, um de vinte e cinco anos, outro de vinte e dois, dirigiam a administração da estância; adoravam a velha mãe, num culto fervoroso, em que se misturavam carinho e veneração. Carlos e Alfredo enterneceram-se, sentindo-se acariciados, respirando livremente, com confiança, nessa atmosfera de sossego e afeto. - Nunca vimos.
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| - Dona Maria Meneses, septuagenária, era ainda forte e sadia: a sua face corada e os seus olhos azuis tinham ainda um brilho de vida e de energia; a sua cabeça, cheia de mocidade, emoldurava-se de cabelos completamente brancos, de uma alvura de neve. Os dois filhos, Roberto e João, um de vinte e cinco anos, outro de vinte e dois, dirigiam a administração da estância; adoravam a velha mãe, num culto fervoroso, em que se misturavam carinho e veneração. Carlos e Alfredo enterneceram-se, sentindo-se acariciados, respirando livremente, com confiança, nessa atmosfera de sossego e afeto. Acalmadas as primeiras expansões, Carlos tratou logo de conduzir a conversa para a morte do pai, na ansiosa curiosidade de ouvir da avó qualquer opinião mais precisa. Ela repetiu-lhe, porém, o que já lhe haviam dito os tios: que não havia certeza; e, enquanto falava, sorria. Refletindo bem, Carlos desconfiou que “não lhe diziam tudo...” - Mas que sabe a senhora a respeito de papai, vovó?!... Foi um dos tios que respondeu: - Sabe o que todos nós sabemos. Conte-nos você, outra vez, como tudo isto se passou, e diga-nos como teve notícia da morte de seu pai. E Carlos recomeçou mais uma vez a história de todos os transes. A hora do jantar veio alcançá-lo ainda a relatar tristezas e peripécias, cuja história era entrecortada a todo momento pelas exclamações penalizadas da velha estancieira. Alfredo, mais criança, e fatigado da última jornada, deitou-se cedo, e adormeceu logo, profundamente. Carlos, depois do serão familiar conciliou dificilmente o sono quando se deitou e velou durante muito tempo, preocupado, numa febril agitação do espírito, entre dúvida e esperança. Ao levantar-se, de manhã, falou de novo aos tios, assediando-os de perguntas. E tanto os importunou que Roberto, o mais velho, procurando aliviá-lo, disse-lhe: - Bem! Dou-lhe uma promessa formal: se, daqui a oito dias, não recebermos notícias positivas, irei à Bahia e dirigirei pessoalmente um inquérito. E agora vamos ver a estância, porque vocês nunca viram uma estância, não é verdade? - Nunca vimos. A casa principal era um vasto e sólido edifício quadrado, de paredes brancas e simples, irradiante de luz. Ficava na eminência de uma colina suave, em meio de uma vasta campina, levemente ondulada. Um horizonte sem fim, onde o manto verde claro das campinas era de longe em longe interrompido pelo verde forte dos capões, estendia-se ante o olhar de Carlos e Alfredo... - São as pastagens! - disse o tio João, abrangendo com um gesto a extensão do horizonte. - Temos quatro léguas de campo. Alfredo, encantado já com a vida da estância, queria percorrer os pastos e ver o gado. - Verás amanhã! Passarás algum tempo na estância, e percorrerás o campo, a cavalo, quando quiseres. Mas é preciso que saibas montar; com algumas lições, ficarás sendo um bravo gaúcho! - Os pastos estão cheios de bois? - De bois, de cabras, de carneiros. E temos também muitos cavalos. E verás também a charqueada. - Que é a charqueada? - É o estabelecimento em que se prepara a carne salgada e seca. A carne seca chama-se também charque. Produzimos mais de duzentos mil quilos de charque por ano. - É esta estância, uma das mais ricas do Estado? - É uma estância de algum valor. Temos alguns milhares de cabeças, incluindo as reses bovinas, ovinas, caprinas - também os porcos. Continuaram a visitar a fazenda. Em torno da casa, estendiam-se as residências dos empregados e outras dependências: paióis de forragens, salas de arreios, alpendre para os carros, e depois, os currais e potreiros, as estrebarias, - tudo fechando a vivenda num vasto quadrilátero. Em frente, debaixo do outro alpendre, estava uma roda de peões, - os empregados da estância, os que lidavam com o gado. Tomavam tranqüilamente o seu chimarrão: é o nome que os gaúchos dão ali ao mate, como usam tomá-lo - sem açúcar; a erva perfumada, reduzida a pó grosso, é trazida na pequena cuia, com a respectiva bombilha, que é um tubo com um crivo na extremidade; despeja-se dentro a água a ferver e a cuia passa de mão em mão, cada um sugando pela mesma bombilha o líquido fumegante. - É a bebida usual, entre os gaúchos, - disse Roberto. - Os peões riograndenses nunca viajam sem a sua cuia e a sua bombilha... Categoria:Literatura brasileira Categoria:Literatura infantil Categoria:Olavo Bilac
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