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| - O dia seguinte ao da leitura dos jornais, passou-se sem novidade. À tarde, apareceu na oficina o aprendiz que tinha enfermado; vinha bom, e pronto para recomeçar a trabalhar no outro dia. Carlos chegou a estimar a ocorrência, porque todo o seu desejo, agora, era partir o mais depressa possível para a Bahia. O ferreiro, que era bom homem, deu a Juvêncio dois mil réis, com que este, antes de se deitar, comprou alguns víveres, carne e pão, para a viagem. Dormiram e ao romper da manhã, puseram-se a caminho. Os meninos carregavam a matalotagem, e Juvêncio uma cabaça cheia de água. E falou alto:
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| - O dia seguinte ao da leitura dos jornais, passou-se sem novidade. À tarde, apareceu na oficina o aprendiz que tinha enfermado; vinha bom, e pronto para recomeçar a trabalhar no outro dia. Carlos chegou a estimar a ocorrência, porque todo o seu desejo, agora, era partir o mais depressa possível para a Bahia. O ferreiro, que era bom homem, deu a Juvêncio dois mil réis, com que este, antes de se deitar, comprou alguns víveres, carne e pão, para a viagem. Dormiram e ao romper da manhã, puseram-se a caminho. Os meninos carregavam a matalotagem, e Juvêncio uma cabaça cheia de água. Enquanto marchavam, iam conversando sobre a grande novidade que os preocupava. Quem seria aquele negociante da Bahia? - que interesse teria ele em conhecer o paradeiro dos dois? Qual seria o intuito do anúncio? - Só pode ser bom! - disse Juvêncio. - Os senhores não têm parentes na Bahia? - Não. É verdade que meu pai devia ter por lá alguns conhecidos... - disse Carlos. - Os únicos parentes que temos estão no Rio Grande do Sul. - Bom. Mas esses parentes já devem ter recebido a notícia da morte de seu pai; talvez o negociante da Bahia seja amigo deles. - Talvez. Em todo o caso, tiraremos a coisa a limpo, quando lá chegarmos. Alfredo que ia um pouco adiante, parou de súbito, e inclinou a cabeça, como prestando atenção a um ruído. - Que é? - perguntou-lhe o irmão. - Psiu! - recomendou o menino. E continuou a prestar atenção, voltando-se ora para um, ora para outro lado. Os outros aproximaram-se. - O que é? - repetiu Carlos. - Estou ouvindo qualquer cousa como um gemido... Ouçam... Carlos e Juvêncio afiaram o ouvido. Havia, de fato, alguma coisa. Era um como lamento longínquo... - É voz humana! - murmurou Carlos. - E vem dali, de dentro do mato, à esquerda... - acrescentou Juvêncio. Seguiram, nessa direção. Os gemidos acentuavam-se. Chegaram a um valo, cavado no mato, perto do caminho; reconheceram que era efetivamente dali que partia a voz. Debruçaram-se, e viram lá em baixo um vulto estirado sobre os galhos secos. Era um velho. - Está morto, coitado! - exclamou Alfredo. - Qual morto! - disse Juvêncio - vosmecê já ouviu um morto gemer? Está vivo, e devemos socorrê-lo! - Está claro! - afirmaram ao mesmo tempo os dois irmãos. - O que eu não sei é como havemos de tirá-lo dali! Vejamos se ele é capaz de nos ouvir. E falou alto: - Que é isso, camarada? Que tem? - Socorro! Acudam-me! - gemeu a voz lá em baixo. Era uma voz tão fraca, tão abafada, que parecia a de um moribundo. - Vamos tratar de ajudá-lo! Espere um pouco! Os três rapazes, debruçados sobre o valo, viram então mover-se vagarosamente, entre gemidos, a face do velho. As suas longas barbas brancas estavam ensangüentadas... Não longe do lugar, ouviu-se logo um relincho prolongado. Entre as árvores, viram os rapazes um cavalo, que pastava tranqüilamente. - Que mistério será este? - disse Juvêncio. - Água... tenho... sede... - sussurrou a voz do velho... - Vou descer! - resolveu o sertanejo. Apertou bem a corda que lhe atava às costas a cabaça, e deixou cair, com cautela, pelo declive, agarrando-se às plantas, apoiando os pés nos troncos secos. Em poucos segundos estava perto do homem e reconheceu que ele estava gravemente ferido. Levantou-lhe a cabeça, encostou-lhe à boca o gargalo da cabaça, e quando o viu saciado, refrescou-lhe a cabeça e a face com um pouco de água. O velho, reanimado, pôde então, em frases entrecortadas, explicar mais ou menos o que lhe acontecera. Caíra do cavalo, rolara ali, e sentia bem que ia morrer... - Quem é o senhor? - perguntou Juvêncio. - Chamo-me Ricardo. Moro aqui perto, na vila de Jaguarí... Tenho lá a minha família... - O cavalo que está lá em cima é seu? - Deve... ser... - Bem! Tenha paciência, que vou num instante à vila buscar socorros... e gritou para cima: - Seu Carlos! - Hem! - Veja se pode descer! Desça com cuidado! Preciso do senhor aqui... - De mim também? - perguntou Alfredo. - Não! Espere por mim... Carlos desceu, sem grande dificuldade. Quando o viu ao seu lado, o rapaz avisou-o do que ia fazer: montaria o cavalo, e iria num momento à vila, enquanto ele, Carlos, ficaria ali, tomando conta do enfermo. - E Alfredo? - Vai comigo. Levo-o na garupa. - Pois sim! - aprovou Carlos - mas não se demore! - É um pulo! E agarrando-se de novo às plantas e às pedras o sertanejo galgou a borda do valo.
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