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| - Quando as geadas matinais parecem Da alva irmã figurar a imagem pura, Mas tais feições em breve se esvaecem. Campino, que a indigência já tortura, Ergue-se, e vendo o prado embranquecido. No coração calar sente a amargura. Torna ao tugúrio e carpe-se abatido, Como quem toda a esp’rança já perdera; Mas vendo em breve o campo estar despido Do triste manto, o alento recupera. Revigorado então, corre ao cajado E as ovelhas ao pascigo acelera. De temor me senti, dessa arte, entrado Do mestre merencóreo ante o semblante; Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado. À ruína chegamos: nesse instante Virgílio volve àquele doce gesto, Que eu da colina ao pé vira ofegante. Reflete um pouco, o estado manifesto Da rocha examinando: eis-me, estendendo Os braços, resoluto ergueu-me presto. Como aquele que uma obra entre mãos tendo. Logo noutra tarefa põe o intento, Num rochedo Virgílio me sustendo, Já de outro acima me avisava atento. Mais alto agora sobe — me dizia — Vê se a rocha está firme! Toma tento! De capa ali ninguém transitaria; Pois nós, leves e eu sempre transportado, Subíamos a custo a penedia. Se mais alto o declive do outro lado Não fora do que esse outro, em que ora estamos, — Dele não sei — ficara eu lá prostrado. Que Malebolge inclina-se notamos À boca enorme do profundo poço; As encostas, são tais — expr’imentamos — Que uma é baixa, outra excelsa em cada fosso. Vimos, enfim, do topo à roca extrema, Dessa ruína ao último destroço. Lá chegado, afã tanto o peito prema, Que avante um passo dar eu mais não pude; Sentei-me então na inanição suprema. Eia! toda a fraqueza em ti se mude! Em ócio — disse o Mestre — ou sobre a pluma Prêmios ninguém conquista da virtude. Aquele que a existência assim consuma, Tal vestígio de si deixa na terra, Como o fumo no ar e na água a espuma. Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra! Recobra o esforço que os perigos vence! Impere alma no corpo em que se encerra! Que vais subir muito alto a mente pense; Desse abismo não basta haver saído. Será teu prol, se a minha voz convence. Alço-me então, mostrando-me impelido De alento, que não tinha; e ao Mestre digo: Avante! Forte já me sinto e ardido! Pela rocha asperíssima prossigo Mais estreita, inda menos acessível Que a outra: os passos de Virgílio sigo. Por provar-me às fadigas insensível Falando andava. Eis ouço de outra cava Ressoar voz bem pouco perceptível. O que disse não sei, posto me achava Da ponte sobre a parte culminante; Mais parecia iroso quem falava. Curvei-me para ver no fosso hiante, Mas alcançar não pude o fundo escuro. Ao Mestre disse então. Se apraz-te, avante Passando, desceremos deste muro; Daqui ouço uma voz, mas não a entendo; Fito os olhos, mas nada me afiguro. Respondo aos teus desejos, acedendo; Que o pedido discreto assim declaro Se cumpre, não falando, mas fazendo. Fomos da ponte à parte, donde é claro Que se vai ter à ribanceira oitava: Ficou patente a cava ao meu reparo. De serpes tal cardume se enroscava, Horríficas na infinda variedade, Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava. Não tenha a Líbia de criar vaidade, De quersos, fares, cencris no seu seio E anfisbenas, tamanha quantidade. Nem do mar Roxo em plagas, nem no meio Da Etiópia, tropel tão pavoroso De flagelos jamais a lume veio: Por entre o enxame atroce e temeroso Almas corriam nuas e transidas, Heliotrópia não sperando ou pouso. Atrás as mãos por serpes são tolhidas, Que, transpassando os rins, cauda e cabeça, Lhes tinham por diante em laços unidas. Eis uma de repente se arremessa Ao prescito, que perto nos demora: Morde-lhe o colo aonde a espádua cessa. Um O traçar ou I mais custa agora Do que ser o mesquinho incendiado: Em cinzas cai o pecador, que chora. Stando em terra desta arte derribado, Juntando-se a cinza e logo reformou-se, Como de antes, o triste condenado. Dos sábios na escritura já narrou-se Que a Fênix morre e logo após renasce, Quando aos anos quinhentos acercou-se. Viva, já nunca em cibo ela se pasce, Em lágrimas, porém, de incenso e amono; De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se. Como aquele que cai sem saber como, Do demônio ao poder, que à terra o tira, Ou de outra opilação sentindo o assomo; Levantando-se, em torno a si remira, Da angústia inda aturdido, que o mordera, E, em seu soçobro, pávido suspira: Assim parece o pecador, que ardera. Contra os pecados na final vingança, Ó Justiça de Deus, quanto és severa! Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança Estas vozes: — Há pouco, da Toscana Chovi no abismo, onde ninguém descansa. Vida brutal vivi, não vida humana. Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta; Pistóia, meu covil, de mim se ufana. Ao Mestre eu disse: — Referir-nos resta O crime, que deu causa à morte sua: Sei que em sangue banhara a mão funesta. O pecador, que me ouve, não se amua: Volta-me presto a cara, em que a tristeza Com sinais de vergonha se insinua E diz: — Sinto da dor mais a aspereza, Porque em miséria tanta me vês posto, Do que quando da morte hei sido a presa. Ao que exiges respondo com desgosto: Por ter roubado alfaias e ornamento Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto Que pelo crime houvesse outro tormento. Se deste antro saíres algum dia, Por que não sejas do meu mal contento, Ouve bem o que a voz minha anuncia: De si Pistóia os Negros expulsando, Povo, modos, Florença então cambia. Vapor de Val de Magra Marte alçando, O traz em torvas nuvens envolvido; E, enquanto a tempestade está raivando, No campo de Picen será ferido Combate; a névoa logo se esvaece; Dos Brancos cada qual será batido. Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece.
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